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domingo, 26 de julho de 2009

Crossdressers

Olá lindas crianças que navegam pelo fantástico mundo virtual e agora purpurinado e pasmem, emplumado, também.

Além do brilho, glamour, beleza e sensualidade é necessário saber distinguir as figuras que habitam o trânsito desse mundo maravilhoso dos palcos, lembrando, que as maiores expressões, as que ocupam as mídias e palcos, shows, rádios, rede relacionamentos e blogs, são montagens que recebem diversos nomes e definições quanto as suas formas.

Vamos conhecer, desde o início, caso a caso, cada um deles, colocando o glitter e as plumas em quem de direito.

Crossdressers

Os crossdressers são pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto, por qualquer uma de muitas razões, desde vivenciar uma faceta feminina (para os homens), masculina (para as mulheres), motivos profissionais, para obter gratificação sexual, ou outras. O crossdressing (ou travestismo, no Português Europeu, e frequentemente abreviado para "CD"), não está relacionado com a orientação sexual, e um crossdresser pode ser heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual. O crossdressing também não está relacionado com a transsexualidade.

Os crossdressers tipicamente não modificam o seu corpo, através da terapia hormonal ou cirurgias, mas tal acontece nalguns casos.

Os transformistas fazem parte da população crossdresser, mas a sua motivação está relacionada apenas com motivos profissionais, como espectáculos de transformismo. A expressão "drag-queen" (de DRAG, "DRessed As a Girl"), em inglês, é equivalente a transformista, mas quando utilizada no português, por vezes refere-se aos crossdressers com um visual mais exageradamente feminino.


Artigo Publicado na Revista Época de 04/09/2008


Dentro de mim mora um anjo
Ele é pai, marido e homem de negócios. Debaixo da camisa, esconde seios e o desejo irrefreável de vestir-se de mulher. Como entender o universo ambíguo de um “crossdresser”?
Ivan Martins (texto) e Ricardo Corrêa (fotos)

Quantas pessoas vivem dessa maneira? Na tese de Eliane Kogut cita-se uma estatística do início dos anos 90, segundo a qual algo entre 0,5% e 3% da população seria composta de crossdressers e travestis. O intervalo é grande – e os porcentuais provavelmente não significam nada. Sabe-se que o BCC reúne no Brasil cerca de 350 associados, mas isso também não diz muito. Julga-se, ou melhor, suspeita-se que a maioria dos CDs é casada. Nos Estados Unidos, a mais antiga associação mundial de crossdressers, fundada em 1976 com o nome de Tri-Ess International (ou Sociedade para o Segundo Eu), promove festas anuais gigantescas, mas a organização não informa quantos associados tem. Se faltam estatísticas, existe alguma história. O imperador romano Heliogábalo, que reinou brevemente no século III, vestia-se de mulher publicamente. Chegou a encenar um defloramento ao se casar com um escravo. Foi morto por seus soldados. O Chevalier d’Eon é outra figura famosa no panteão da ambigüidade. Viveu no século XVIII na corte francesa, como nobre e diplomata. Fugiu para a Inglaterra depois da revolução de 1789 e lá morreu sem que se soubesse exatamente a que gênero pertencia. Houve apostas na Bolsa de Londres que terminaram com a autópsia: era homem. Recentemente, foi publicada nos Estados Unidos a biografia de Gregory Hemingway, filho de Ernest, escritor tido como o mais durão do século XX. No livro, escrito por John Hemingway (neto de Ernest), descobre-se que Gregory, além de bipolar e autodestrutivo, tinha um problema insolúvel de identidade de gênero: o mesmo homem que caçava elefantes na África e se atirava sobre as mulheres em toda parte freqüentava os bares do Estado de Montana vestido de mulher. Teve quatro casamentos, os dois últimos em meio a intensas transformações cirúrgicas que fizeram dele (quase) uma senhora.

Casos como esse de Gregory Hemingway sublinham a confusão no mundo das novas sexualidades. Crossdressers se diferenciam de travestis por não se prostituir, por transitar regularmente entre a situação de homem e mulher – os travestis ficam montados permanentemente – e, em certa medida, por ser mais contidos na modificação corporal. CDs raramente fazem implantes de silicone e cirurgias. Márcio, com seios e esculturas corporais, está no limite das duas categorias. Há, por fim, os transexuais, aqueles que se sentem mulheres aprisionadas no corpo de homens. Estes às vezes passam anos na condição de crossdressers antes de se decidir por uma operação de mudança de sexo. Eliane Kogut diz que 6% dos CDs que ela acompanhou em sua pesquisa fizeram a cirurgia e assumiram a identidade de mulher. Tudo isso, claro, é visto pela psiquiatria tradicional por uma lente rigorosa e desaprovadora. Ao contrário da homossexualidade, o travestismo ainda é considerado patologia, um transtorno de identidade de gênero. “Com o tempo, isso vai mudar”, afirma Eliane. “A homossexualidade só deixou de ser considerada doença em 1974”.

Diante de um senhor alto e corpulento, vestido com sandália branca e peruca ruiva, é difícil esconder o desconforto. Estou no apartamento de Márcia, conversando com um grupo do Brazilian Crossdressers Club. A organização foi criada há 11 anos com o objetivo de ajudar os CDs e colocá-los em contato uns com os outros. O grupo se comunica por meio do site www.bccclub.com.br. Ali eles trocam literatura, serviços e organizam um grande encontro anual, o Holliday En Femme, durante o qual passam um fim de semana inteiro vestidos de mulher. O senhor alto de peruca ruiva acabou de se integrar ao grupo, com cognome de Márcia Polari. Tímido, está vivendo as primeiras experiências de sair em público vestido de mulher. Ele é médico, casado, pai de filhos adultos. Diz que costumava montar-se apenas nos Estados Unidos, quando viajava. Comprava roupas íntimas e calçados de mulher no Wal-Mart, trancava-se no quarto do hotel – e ali passava horas imerso em fantasias. Agora é diferente. Desde que conheceu o BCC, tem se “montado” com freqüência. Seu lado feminino está exigindo mais – a ponto de ele se perguntar sobre o futuro de seu casamento. Sua mulher não sabe da vida paralela. Semanas atrás, o grupo de crossdressers contratou um profissional para maquiar a “novata” pela primeira vez. De costas para o espelho, recebeu base, batom e seus olhos foram pintados. Quando a cadeira girou e ele se viu no espelho de maquiagem, soltou um grito: “Esta sou eu!”. Aos 62 anos.

“Se existisse uma pílula que eliminasse a Márcia, eu tomaria. Seria mais simples”

Psicólogos e psicanalistas dizem que a angústia dos CDs será tanto mais grave quanto mais clandestinos eles viverem. “Quanto mais você tem a esconder, maior a angústia”, diz Eliane. A pulsão de vestir-se de mulher emerge com mais força em períodos de ansiedade e frustração, como ocorre com viciados em drogas. É o período que os CDs chamam de “urge”. Quando finalmente se vestem, sentem um prazer que é propriamente sexual, e a ansiedade se reduz. A isso, porém, segue-se um período de culpa, durante o qual tomam a decisão de “nunca mais” se travestir. Ao sentimento negativo, os CDs dão o nome de “purge”. Os períodos opostos, de entrega e negação, parecem se alternar ao longo da vida dos crossdressers. “Conheci um deles que tinha feito quatro guarda-roupas”, diz Eliane. Quando o sujeito encontra um lugar seguro para a persona feminina em sua vida – como ocorreu com Márcio –, a gangorra desacelera e a angústia decresce. A mulher de Márcio diz que ele se tornou muito mais produtivo nos últimos anos, quando Márcia passou a ter um papel importante na vida deles. O que parece difícil é livrar-se definitivamente da pulsão. Os CDs dizem que não há ex-crossdresser, ainda que médicos como Oswaldo Rodrigues relatem casos de pacientes que deixaram essa situação para trás. “O ser humano é o animal mais plástico que existe”, diz ele. “Toda compulsão é mutável”.

O site do Tri-Ess americano contém um documento eloqüente para quem deseja entender o universo dos crossdressers: os 12 direitos das mulheres de CDs. A lista contém coisas engraçadas – “Temos o direito de ser consultadas antes que usem nossas jóias e maquiagem” – e outras de teor sombrio. “Temos o direito ao corpo masculino dos nossos maridos”, diz o documento. “Nenhuma parte no casamento tem o direito de alterar o corpo sem o consentimento do outro”. Esse comentário revela um comportamento dos crossdressers que é motivo de grande ansiedade entre suas esposas: a tendência a avançar na personificação feminina, a ponto de colocar em risco o trabalho, a família e o convívio social. Márcio tinha cabelos curtos, raspava a barba e aparava as unhas quando se casou com Priscilla. Hoje, toma hormônios, se depila e montou um apartamento para seu lado mulher. Os CDs com quem conversei dizem que “testar os limites da transformação” é um clássico entre eles.

Pergunto ao casal Márcio–Priscilla onde a mudança física dele vai parar. Ele, sem hesitar, diz que já parou. Ela faz um gesto de incerteza. “As mulheres são muito importantes na vida dos CDs. Elas dão o limite”, afirma a psicanalista Eliane. Priscilla usa palavras parecidas para falar de seu casamento: “Eu me sinto a âncora dele”. A filha adolescente de Márcio vem sendo informada aos poucos da situação e, segundo ele, recebe tudo “com naturalidade”. Ela é capaz, por exemplo, de fazer piada com os seios do pai e de rir quando ele, num arroubo de moça, “precisa” comprar uma sandália exposta na vitrine do shopping. Tamanho 41. Parece grotesco? Semanas atrás, eu também acharia. Depois de conviver com Márcio e sua família, depois de conversar com seus amigos e de ouvir os psicólogos, minha opinião mudou. O sujeito é bom pai, bom marido e leva uma vida sexual da pesada. E daí? Tanto quanto eu pude perceber, ele não faz mal a ninguém. Pesa sobre seus atos, ademais, uma camada de inevitabilidade. Na primeira vez em que conversamos, Márcio me disse: “Se existisse uma pílula que acabasse com a Márcia, eu tomaria. A vida seria mais simples”. Quem duvida?


11 passos para ser crossdressers (ou entender)


Embora muitas de nós, até por defesa psíquica, procurem sistematicamente enxergar o crossdressing apenas através da lente doce e iluminada de uma feminilidade idealizada, quero dizer - por minha experiência e sofrimento pessoal - que travestismo masculino não é brincadeira não. É coisa pra fundir a cuca de qualquer pessoa, por mais sensata e equilibrada que seja.

São absurdamente altos, cansativos e desgastantes os muros - pessoais e sociais - a serem vencidos. E parecem não se acabar jamais.

Primeiro, a gente tem que vencer a maldita idéia cultural, profundamente arraigada dentro de nós, de que “ser homem” ou “ser mulher” é uma condição herdada da natureza e que, portanto, pelo simples fato de se ter um pinto ou uma vagina – de ter barba e bigode ou sangrar mensalmente – a gente tem que ser e agir do jeito que a sociedade espera de nós.

Segundo, a gente tem que vencer a maldita “ditadura do espelho” que nos diz, baseado nesses “esculturais corpos de mulher”, devidamente “photoshopeados” dos outdoors, que a gente jamais conseguirá convencer a ninguém – principalmente a nós mesmos – da nossa suposta “feminilidade”. Entretanto, a toda hora cruzamos com mulheres que, justamente por serem mulheres mesmo, estariam, comparativamente, em muito piores condições do que nós, se colocadas lado a lado com essas monumentais capas da Playboy.

Terceiro, a gente tem que se desvencilhar das questões da sexualidade que, também por força de aprendizado social, aparecem na nossa cabeça completamente misturadas com as questões de transgeneridade. Se uma pessoa tem orientação homossexual não significa absolutamente que ela está identificada com a mulher ou até que “deseja ser” uma mulher. Muito pelo contrário, homossexuais buscam pessoas do seu PRÓPRIO SEXO!!! Em tese, quanto mais másculo e em forma física “masculina”, mais desejo sexual um homem desperta sobre outro homem homossexual. Assim, se um homem se veste de mulher objetivando fazer sexo com outro homem, em princípio está cometendo um erro de cálculo que pode lhe custar um excelente programa. A menos, é claro, que ele encontre ALGUÉM QUE GOSTE DE HOMEM VESTIDO DE MULHER, ou seja, que goste de travesti, e isso existe aos montes. Mas o que eu quero dizer é que muitos homossexuais ainda enrustidos (por serem casados, por medo de exposição pública, por um agudo sentimento de culpa, etc) acabam se travestindo a fim de realizarem o seu desejo de maneira – na crença deles – menos "culposa", pois não suportariam descobrir-se fazendo amor, como homem, com outro homem. Valer-se do travestismo para manifestar a própria homossexualidade é um expediente totalmente desnecessário no mundo de hoje, onde essa forma de orientação sexual está totalmente reconhecida como natural e é plenamente aceita pela maioria da sociedade, ao contrário do travestismo, que ainda continua sendo altamente repudiado.

Quarto, a gente tem que aceitar a idéia de que as pessoas à nossa volta, inclusive as mais próximas e as mais queridas, podem não gostar nem um pouquinho de saber que a gente se traveste. E não adianta querer tapar o sol com a peneira, fazendo tudo escondido, achando que ninguém nunca vai saber de nada. No mundo de hoje, além de ouvidos, as paredes têm câmeras, transmitindo todos os nossos movimentos, em tempo real, para o mundo inteiro... Dizer que “a minha mulher nunca vai saber” é tão tolo e ingênuo quanto julgar-se capaz de cometer o “crime perfeito”. Então é necessário comunicar, dizer, mostrar-se por inteiro, falar desses desejos e necessidades incontroláveis que nos perseguem dia e noite e que se tornam tão cruelmente dolorosos quando são duramente reprimidos. Ao falar, não podemos esperar nem compreensão nem aceitação. Se estas vierem, será um verdadeiro "presente dos deuses". Mas, se não vierem, pelo menos diminuem enormemente o peso da carga, além de nos obrigar a encontrar caminhos e alternativas, autênticas e verdadeiras, para a nossa realização.

Quinto, a gente tem que buscar compreender e desenvolver “atitudes femininas” antes de dominar técnicas apuradas de vestuário e maquiagem. Uma mulher não é mulher porque está vestida de mulher, mas porque demonstra atitudes consideradas próprias da mulher. São as atitudes que fazem uma mulher ser reconhecida como mulher - ou um homem, como um homem, ainda que esteja vestido de mulher! O hábito não faz o monge, diz o velho ditado... Conheço CDs que são figuras absolutamente fantásticas de mulher quando estão vestidas e maquiadas. O problema é que a ilusão de ótica se desfaz inteiramente na primeira passada ou na primeira palavra dita, mesmo quando elas inflexionam a voz achando que assim se tornam mais "femininas" e tudo que conseguem é piorar as coisas ainda mais com aquela irritante tonalidade do “pato donald”...
Agora o seguinte: - "atitude" de mulher não tem nada a ver com desmunhecamento, com exageros de caras e bocas, com frescuras além de toda conta. Nenhuma mulher faz isso, gente! Nem as peruas mais afetadas! Atitudes assim só existem na cabeça de homem que se recusa terminantemente a entrar no “Espírito Feminino”, mesmo quando consegue aparentar uma bela imagem de mulher. Mulher é dócil, mas é firme na sua doçura. Mulher caminha com leveza, mas não rebola feito uma bote na água. Mulher gesticula com graça, mas não desmunheca. Mulher fala com suavidade, mesmo quando não tem a voz fina...

Sexto, a gente tem que se conformar com a própria sorte (melhor seria dizer com o próprio azar...), aceitando a total inexistência de explicações lógicas, objetivas e racionais para esse nosso impulso interior que nos leva a querer loucamente nos travestir. Não adianta tentar entender "logicamente" o que se passa conosco. Não adianta fundir a cuca tentando encontrar justificativas pseudo-científicas ou místico-religiosas para essa nossa condição. Isso só atrasa o desenvolvimento do nosso próprio ser, impedindo o desabrochar de algo que hoje eu considero ser totalmente natural dentro de nós, e cujo impedimento é capaz de nos mandar para a cama, com males físicos reais, que vão desde uma prosaica e insistente dor de cabeça até um câncer. Por isso mesmo, ficar eternamente no armário, para quem traz dentro de si o embrião da transgeneridade, é a mesma coisa que condenar-se a uma morte - física e psíquica – lenta, persistente e nada sutil...

Sétimo, a gente tem que mergulhar fundo nos nossos próprios sentimentos a respeito da nossa condição de crossdresser – e administra-los com muita competência – sob pena de sermos devorados por eles, sem a menor piedade. O medo, sem dúvida alguma, encabeça a lista desses sentimentos. Castigo! Pois, por sermos “menininhos”, sempre ouvimos na nossa infância que homem não tem nem pode ter medo... Mas acontece que a gente tem medo - e são muitos. O medo de se expor aos olhos implacáveis das outras pessoas (que, no fundo, é o nosso próprio olhar nos olhando...). O medo de ser abandonado pela esposa, pelos filhos, pelos familiares se eles vierem a saber de uma coisa dessas. O medo de ser descoberto por chefes e colegas de trabalho e ter uma brilhante carreira profissional instantaneamente manchada por esse "lodo irremovível". O medo do ridículo, de passar por palhaço, de ser motivo de gozação, ao sair em público vestido de mulher. O medo de ter a própria sexualidade confundida ou devassada pela "opinião pública", sempre ávida de escândalos e “casos escabrosos”.... O medo de terminar sozinho, pobre e sem dinheiro, como um travesti desonroso e um homem desonrado. O medo de ceder ao desejo e tirar os pés fora da realidade, para nunca mais voltar; de enlouquecer, de perder o controle, o juízo, as forças... São tantos medos e a gente é tão frágil que o maior medo de todos é da gente não agüentar e ir a pique. E na raiz de todos esses medos está a maneira como nós próprios nos concebemos. Leia de novo o texto acima e verá que por trás de todos os "medos" está a concepção perversa e monstruosa que temos de nós mesmos. Assim, o ponto de partida para administrar todos os demais sentimentos é acreditar que a gente é apenas uma criatura humana comum e normal como todos os demais. Diga-se de passagem, essa é a tarefa mais difícil e complexa que uma pessoa transgênera tem pela frente: - a auto-aceitação.

Oitavo, a gente tem que se organizar para viver essa mulher que existe dentro de nós. Apesar de mansa e suave, ela é uma dominadora implacável e, se deixarmos, ela nos escraviza além de todas as medidas, podendo até nos levar à mingua, como qualquer “amante cara e cheia de vontades”... Essa mulher que trazemos dentro de nós é um ser buscando realizar-se, um ser dotado de vontade própria, capaz de valer-se de todos os expedientes para atingir os seus fins. Fingir que ela nãso existe ou não lhe dar trela – como faz a maioria silenciosa que passa a “vida”(?) trancada nos seus armários – é o mesmo que estimular a sua fome permanente e insaciável de tornar-se real e de se locomover livremente no mundo, através de nós. Dar-lhe toda a corda desejada, de uma vez só, é perder-se e fazer com que ela se perca definitivamente, embarcando numa viagem sem volta, que pode lhe custar tão caro quanto o seu aprisionamento incondicional. Confesso que encontrar esse meio termo, entre soltar e prender, caminhar e parar, premiar e frustrar, é mais uma tarefa delicada e complexa da vida de um CD (como se tivesse alguma tarefa fácil nessa vida de CD...)

Nono, a gente tem que saber, o mais cedo possível, o que a gente realmente quer e quem a gente pelo menos pensa e/ou sente que é. Qual é a nossa verdadeira condição de crossdresser: - surfistas de calcinha, navegando solitários, altas horas da noite, com a webcam ligada, ou verdadeiras mulheres não-genéticas com (quase) todos os atributos de qualquer outra fêmea? Entre um extremo e outro, existem infinitas possibilidades e, para cada uma delas, infinitos “ajustes” serão necessários no modo de vida pessoal de cada um. Outra coisa: o que a gente quer e o que a gente jamais comportará uma resposta única, válida para a vida inteira. Trata-se de um processo diário de (re)descoberta pessoal, onde tudo que a gente acreditava ainda ontem como verdadeiro e definitivo, pode mostrar-se hoje como insuficiente ou totalmente inválido.

Décimo, a gente tem que aprender a se abrir e a procurar ajuda. Nosso aprendizado de homem nos ensina, dentre outras besteiras catastróficas para um ser humano, a não precisar de ajuda, a não depender de ninguém, a ser auto-suficiente em tudo, a saber de tudo, entender de tudo ou, pelo menos, manter a “pose” de que entende. O travestismo nos coloca numa condição totalmente oposta a esse modelo de masculinidade que nos foi “empurrado” goela abaixo, anos à fio. Tornamo-nos pessoas altamente vulneráveis, miseravelmente reduzidas no status e reconhecimento social (travesti é a décima pessoa depois de ninguém, na escala social; a mulher é apenas a quinta...), expostas a toda uma série de “carências” antes insuspeitas em nossas vidas, que vão desde o cuidado com a pele até a escolha do guarda roupa mais adequado ao nosso tipo físico. Mas a carência maior é psíquica, emocional mesmo. Precisamos de alguém com quem conversar, com quem dividir nossas angústias, nossos medos terríveis e até nossas pequenas alegrias e grandes esperanças... E, certamente, as pessoas mais adequadas para isso não poderão ser nossos grandes amigos do choop ou do futebol. Eles poderão se assustar, nos excluir ou nos gozar para o resto da vida. A esposa, quase sempre, se sabe da nossa condição, fica tão carente de ajuda e apoio quanto nós. Muitos, que têm condições, procuram ajuda clínica de um(a) terapeuta. Mas a maioria dos terapeutas estão pouquissimamente informados a respeito dos complexos aspectos da transgeneridade. Assim, muitas vezes a “ajuda” acaba mais “atrapalhando” do que minimizando nossos conflitos. E, no entanto, a necessidade de se abrir com alguém permanece. A vulnerabilidade exposta continua crescendo e o “buraco” interior precisa de alguém para não deixar que a gente caia nele para sempre.
Assim...

Décimo-primeiro, a gente tem que buscar a aproximação com os nossos semelhantes "mais semelhantes". São eles, em primeira e última instância que, a despeito das peculiaridades da vida de cada um, poderão nos fornecer indicações mais seguras de como encarar e enfrentar as necessidades e vicissitudes próprias da nossa condição transgênera. São eles, também, que poderão nos suprir da companhia indispensável para “cruzarmos as muralhas” do gênero masculino, em busca de uma vivência social para a mulher que existe dentro de nós. Em um mundo tão complexo e instável como é o nosso, apenas a companhia de pessoas semelhantes a nós poderá nos aliviar dos pesos enormes que, caso contrário, teríamos que transportar sozinhos. Se você está em dúvida se é ou não realmente uma pessoa transgênera ou se já é um crossdresser em busca de mais luz em sua vida, seu melhor investimento será, sempre, engajar-se em um grupo de apoio e lá encontrar pessoas com quem possa discutir e vislumbrar caminhos, tanto para suas necessidades triviais quanto para os seus desejos e dificuldades mais íntimos.


continua..................

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Um pouco de riso não faz mal a ninguém heheheh

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mude - Pedro Bial -

Texto atribuido a Clarice Lispector. * Texto escrito por Edson Marques, cujo livro (contendo o poema) foi lançado pela Editora Original Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra. adaptação...

Maria Duavon Canta Viagem